Eles foram os vencedores do nosso Top 10 de melhores discos de 2013, com o aclamado “Mais”. Analisamos minuciosamente o disco e demos nota 9 para o marcante e profundo CD que os lançaram ao mainstream. Deste então, chamaram a atenção de alguns com um grito silencioso. Perturbaram os mais céticos com uma tranquilidade sonora. Agora, a dupla André e Tiago Arrais nos concede uma entrevista exclusiva abordando os mais variáveis assuntos: o início, a carreira, fama, crítica, ensinamentos teológicos e projetos futuros. Acompanhe!

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OP: Como tudo começou? Conte-nos um pouco da história da dupla.

Tudo começou da maneira mais natural possível. Eu (Tiago) comecei escrevendo músicas no período do segundo grau. Pouco tempo depois o André também começou a escrever músicas. As músicas eram simples, mas sinceras. Quando fui para o UNASP-EC no interior de São Paulo continuei escrevendo, e pouco tempo depois o André decidiu ir para a mesma instituição. E lá continuamos escrevendo, cantando aqui e ali, até que o dia chegou de tocarmos juntos. O André cantava as músicas dele, eu fazia vocal, eu tocava e cantava minhas músicas e o André fazia vocal. Quando eu fazia minhas visitas pastorais de estágio cantava para as pessoas em suas casas, hospitais, etc. Nossos amigos e colegas gostavam bastante de nossas músicas e desta maneira nos motivaram a gravar um CD com estas músicas. Pela providência Divina e com o apoio de muitos conseguimos gravar o primeiro CD chamado “Introdução” e este foi o começo de tudo.

OP: O primeiro disco (Introdução), embora bastante poético, foi composto essencialmente por músicas mais diretas e pessoais com letras mais fáceis de serem assimiladas. O “Mais”, em contrapartida, é rebuscado, entretanto foi o trabalho que projetou vocês. Houve alguma surpresa, ou desde o inicio vocês tinham a ciência de que o “Mais” sendo profundo teria maior alcance? 

Sem dúvida. O período entre o CD Mais e Introdução é de mais ou menos 5 anos. Houve bastante amadurecimento neste período. Muita água passou debaixo da ponte. Mas nunca imaginamos que o CD Mais chegaria aonde chegou. A princípio tínhamos o planos de lançar o CD de maneira independente. Mas pela providência Divina, Deus orquestrou algo diferente para o CD Mais que não poderíamos ter antecipado. Tivemos apoio de muitos amigos como o Léo (Leonardo Gonçalves), a Daniela Araújo, o Duca Tambasco e o pessoal do Oficina G3, fora o pessoal da Sony que nos deu um apoio muito grande par ao CD chegar aonde chegou. Nunca imaginávamos que o CD Mais chegaria ao 1o lugar no iTunes em pouco tempo, etc. Deus foi muito bom. Nosso objetivo desde o CD introdução era de ser fiéis ao nosso chamado de ensinar a Palavra através de música. Assim, sempre buscamos fazer o nosso melhor ao nos colocamos nas mãos de Deus. A glória é Dele. Nós somos vasos quebrados e imperfeitos, Ele é o tesouro. Mas sobre o alcance dos dois CDs, o engraçado é que esta semana o jogador Neymar postou a letra de uma de nossas músicas chamada “Cada Passo” do primeiro CD Introdução! Por mais que o CD Mais teve um alcance maior, Deus continua usando as músicas antigas para alcançar pessoas em todos os cantos com a Palavra.


OP: O que atualmente vocês escutam e o que os incomodam na música cristã atual?

O André e eu temos gostos muito semelhantes. Mas ouvimos de tudo. De músicas cristãs antigas americanas até Brahms. Dentre nossos favoritos estão Andrew Peterson, Andy Gullahorn (que produziu Mais conosco), The Brilliance, Sara Groves, e no cenário nacional Léo, Dani, Felipe Valente, Os Iglesias, e Fernando Queiroga estão entre os que mais admiramos (sem contar Stênio Marcius e outros gigantes da música cristã nacional).

Sobre o que nos incomoda… pouco nos incomoda. Não estamos em posição de julgar ninguém. A pior coisa é julgar a intenção de alguém. Quando julgamos a intenção de alguém compor algo não damos o direito do outro se defender. Cada músico tem uma consciência, e um dia irão prestar contas diante do Eterno com relação a suas obras. Somente Deus sabe quais músicos estão fazendo um trabalho para glória pessoal e quais fazem um trabalho para Sua glória em favor do Reino. Podemos avaliar os frutos, mas nunca iremos saber o que agrada ou desagrada a Deus. Assim, pouco nos incomoda. Gostaríamos que certas coisas fossem diferentes, mas cada um diante de si e da missão que lhes foi dada.


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OP: Podemos dizer que a mensagem dita em suas canções não tem exatamente o mesmo apelo popular como as músicas mais conhecidas do meio gospel. Se for comparar, a ótica é meio torta. Para que as pessoas entendam pra onde a roda gira, expliquem melhor a visão que vocês têm do evangelho e a mensagem que querem passar. Há algum ensinamento especifico da bíblia que é pouco explanado na música contemporânea que vocês tendem a defender? 

Boa pergunta. Nossa perspectiva sobre o evangelho e a mensagem que queremos passar é a perspectiva de Cristo. A bíblia diz em João 8:31 “se permanecerdes em minha Palavra verdadeiramente sereis meus discípulos…” Uma coisa é cantar músicas com linguagem Bíblica. Outra coisa é escrever e cantar músicas com a sabedoria que a Bíblia oferece. É muito fácil sentar e escrever uma música que fala informações sobre Deus. Difícil é escrever algo que parte de uma experiência real com Cristo através da Palavra, especialmente no contexto de sofrimento. Uma música que tenha raiz em uma realidade concreta. Meu irmão e eu temos apenas um ministério: o ministério da Palavra. A música faz parte deste ministério de ensinar a Palavra, mas tanto o André como eu estamos em uma universidade nos EUA cursando mestrado e doutorado em teologia porque a música é só parte do ministério, a música é a porta de entrada… existe muito mais na Palavra do que uma música pode abraçar. Assim, como a missão de Cristo era fazer discípulos que continuassem a obra Dele nesta terra até o Seu retorno, e como discipulado está diretamente ligado a “permanecer na Palavra” nós usamos nossas músicas para mostrar a beleza, a profundidade, e o poder que a Palavra têm de nos fazer “mais” do que nós seriamos sem Cristo.

Sobre defender algum ensinamento… a Bíblia não precisa de defesa. Ela é o que é. Para nós, e para Paulo “é o poder de Deus para salvação daquele que crê” (Romanos 1:16). O problema é que hoje em dia nós entendemos o valor do texto Bíblico para espiritualidade, mas a Bíblia não nos fascina, não nos desfaz, não nos comove. Nosso trabalho é usar a música para ser um tira-gosto daquilo que a Bíblia oferece, assim, se você gosta das nossas músicas, espere para ver o que a Palavra tem para oferecer!


OP: Vocês dois, além de músicos, são profundos estudiosos da Bíblia e Teologia (Tiago faz doutorado em Antigo Testamento e Filosofia Cristã; André é mestrando em Divindade). Qual a importância desse estudo e como isso reflete na música que fazem?

Extremamente importante e faz toda a diferença na nossa música. Nós temos o privilégio de estudar a Palavra por 6-8 horas por dia na universidade (e as vezes mais!). Estamos imersos num ambiente acadêmico onde muitos tem esta mesma experiência que nós estamos tendo. E é como diz o ditado, nós somos o que somos mais o nosso ambiente. Ter passado estes anos aqui tem mudado nossa perspectiva sobre muitas coisas, mas a principal delas é a importância da educação. Educação segue os mesmos parâmetros da Redenção que Cristo oferece. Se não fosse assim, porque é tão importante “conhecer” a Cristo de acordo com a Palavra? Pense no texto de João 17:3 – “esta é a vida eterna, que conheçam a Ti.” Nossa vida eterna, nossa salvação em Cristo está diretamente relacionada ao conhecimento de Deus. Conhecimento que nunca tem fim! É permanecendo na Palavra que somos transformados e de acordo com João 8 é somente assim que encontramos verdadeira “liberdade.” Assim, o estudo da Palavra afeta diretamente quem somos em primeiro lugar. Mesmo sem estas músicas, a Palavra tem um papel central na nossa vida. Nossas músicas são apenas um pequeno reflexo daquilo que Deus está fazendo em nós, e daquilo que Deus está disposto a fazer em qualquer um que estiver disposto a ouvir Sua voz através da Palavra. Nossos próximos CDs por este mesmo motivo serão ainda mais Bíblicos, Pentateuco primeiro, Salmos em segundo, e iremos tentar cobrir a Bíblia, cantando e escrevendo sobre as experiência de nossos antepassados na fé! Para que desta forma possamos receber nova motivação para permanecer na jornada, e para que possamos continuar aprendendo do amor e da graça de Deus estendida a todos nós através da revelação da Palavra.


OP: A respeito dos próximos trabalhos, vocês adiantaram nas redes sociais que já estão com dois projetos finalizados: O “Torah” e o EP “Salmos”. Poderiam nos adiantar alguma informação a mais sobre a sonoridade e previsão de lançamento?

Sonoridade de agora em diante não irá ser diferente do CD Mais, poucas diferenças. Queremos manter a mesma produção pois esta é a maneira que tocamos nossas músicas. Sobre previsão e lançamento não temos idéia ainda. Só iremos entrar em estúdio quando tivermos os fundos para pagar o projeto por completo. Até lá é esperar e confiar que se for da vontade de Deus tudo irá acontecer naturalmente. Iremos fazer nossa parte, e o resto, Deus no controle.


OP: Criticas sempre existirão. Esbarrando no maior entrave da dupla, acredito que o folk (estilo de maior predominância em seus trabalhos) veio gerando algumas críticas como “músicas que dão sono” (afirmativa já mencionada por vocês). Isso é algo que – na pior das hipóteses – permeou ou pode afetar e mudar a regência de futuros álbuns? 

Não nos afeta nem 1%. E nada irá mudar. Nós escrevemos as músicas da maneira que escrevemos. Umas são mais animadas, outras são menos. Tudo depende do que queremos comunicar, do que a letra diz. Nem todos entendem esta relação de música (forma) e letra (conteúdo), e não esperamos que todos entendam também. E no final das contas, dormir faz bem, se nossas músicas ajudam, ótimo! rs.


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OP: Na música “Oração”, vocês referem à grandeza de Deus em relação à finitude humana (“que o meu nome morra com meu corpo e o de Cristo permaneça em tudo”). Qual a relação de vocês com a fama? São contrários a ela por achar errado, ou consideram como inevitável para quem consegue destaque com o trabalho? 

A fama não é um problema em si. O problema é o ser humano. Os construtores da torre de babel em Gênesis 11 buscavam um “nome,” um tipo de “fama” egoísta, voltada para o “eu,” para as obras como um fim em si mesmo. Logo em seguida no capítulo 12 de Gênesis Deus chama Abraão e diz que irá dar a ele um “nome,” um tipo de “fama” diferente, uma “fama” em serviço de muitos, uma “fama” que termina glorificando a Deus e não as obras do homem. Nunca buscamos o primeiro tipo de fama. A fama egoísta, que busca aplauso de homens nas custas do favor de Deus. Como disse antes, meu irmão e eu cantávamos nossas músicas em visitas pastorais, em casas, em barracos, mansões, em hospitais, em asilos. Isto nos dava e ainda nos dá muita alegria. Pois a música tem esta função de alcançar as pessoas onde elas estão, e quando podemos orar pelas pessoas, falar para elas da Palavra e não somente cantar, o trabalho é ainda mais completo e profundo. Desta maneira, se esquecerem de nós amanhã, para nós, nada irá mudar, iremos continuar fazendo aquilo que sempre nos deu alegria: ensinar a Palavra de diversas maneiras, para poucos ou para muitos. Recebemos muitos emails com convites para cantar em diversos locais. As vezes estes emails contém informações como: “3 mil pessoas estarão no evento…” e muitas vezes nem respondemos. Não estamos atrás de fama, atrás de multidões, mas atrás de fazer a vontade de Deus, para 1 ou para 10 mil com a mesma intensidade e devoção. E foi por isso que escrevemos: que nosso nome morra com nosso corpo e que o de Cristo permaneça em tudo. Se no final de nossos dias as pessoas lembrarem mais de nós, e menos do Cristo do qual falamos, cantamos, e servimos, teremos falhado. A fama que queremos é aquela fama que traz glória a Deus. Se é plano de Deus que nossas músicas se espalhem pelo Brasil todo gerando uma certa “fama” que assim seja, mas nosso ministério, nossa vida e existência não dependem disso. Ele sabe. E é por isso que de alguma maneira Ele honrou nossa disposição de usar nossos dons para minoria nos dando oportunidades de cantar para uma maioria que não nos conhecia. A fama que queremos é a fama diante Dele, uma fama onde nós desaparecemos, e Cristo permanece em tudo. Uma fama que no serviço faz o homem desaparecer para que a glória Dele seja manifesta. João Batista estava certo: “importa que Ele cresça e eu diminua…” (João 3:30). Perfeito exemplo a ser seguido!


OP: Residindo nos Estados Unidos, pretendem iniciar um ministério ou projeto voltado especificamente no idioma inglês? 

Quem dera! Temos algumas músicas em inglês, mas infelizmente todos os fundos que temos e recebemos dedicamos para os projetos brasileiros em português. Nossa vida aqui nos EUA é passageira. Se um dia retornarmos para cá, iremos pensar mais uma vez nesta possibilidade, mas no momento nosso foco é no Brasil.


OP: Como vocês veem o futuro da dupla? Mesmo sendo matéria de competência Divina, se vocês pudessem escolher e trabalhar nisto, como vocês – enquanto músicos – se enxergam no futuro? Considerando o momento que decidiram fazer música profissionalmente, vocês já atingiram o que sonhavam? Ultrapassaram? Ou ainda não alcançaram? 

Há sempre mais. Enquanto Deus nos der melodias iremos compor pois isto é natural para nós. É uma maneira de sintetizar teologia para que ela seja comunicada de uma forma mais simples e bela, através de arte. Mas sobre o futuro nosso plano é continuar nos colocando nas mãos de Deus como temos feito até aqui. Iremos continuar escrevendo músicas e é Ele quem decide aonde estas músicas irão chegar. Assim, com ou sem CD, com ou sem fama, iremos continuar nesta trilha. Nosso sonho é cobrir toda a Bíblia na forma de música. De Gênesis até Apocalipse, para que as pessoas tenham um desejo renovado de estudar estes livros cheio de beleza e poesia, livros que contam a história da humanidade na vida de pessoas que como nós viveram alegrias e tristezas, desafios e incertezas, que lutaram com o “eu” ao aprenderem a confiar num Deus que muitas vezes nem podiam ver. Desta maneira, sempre existe mais para ser feito, mais para ser escrito. Mas nos colocamos nas mãos de Deus, nós somos apenas instrumentos, ele é o Músico, o Regente.