Fronteira – Musicografia: Bruno Branco – Lado a lado


O primeiro trabalho musical do Bruno Branco na sua carreira solo foi Lado a Lado, uma obra totalmente acústica, usando três violões, um banjo, escaleta e alguns recursos de percussão, com interpretações vocais de Bruno. Todas as canções foram compostas por Branco, e produzido por Jordan Macedo, produtor de músicos e bandas como Thalles, Heloisa Rosa, Lucas Souza, Chris Durán e bandas como o Palavrantiga.

Em várias entrevistas, Branco demonstra que o Lado a Lado foi composto por várias ideias. Em entrevista a Missão Gospel, ele revela que o

“desejo ao produzir esse álbum é que ele fosse de “bolso”, ou seja, algo agradável e pelo qual as pessoas pudessem usufruir no dia a dia. E nada melhor que um álbum “Lado a Lado” das pessoas, nome da terceira faixa do disco. A música foi sugerida para dar brilho ao nome do CD pelo designer que fez a capa do disco, Josué Ribeiro.”

Já em outra entrevista para o site Som de Madeira, ele afirma:

“Tentamos não fazer um disco enjoativo. É um disco que carrega várias épocas da minha vida, mostrando os frutos de andar lado a lado com Deus: nas crises e nos momentos bons. O nome é um resumo do disco. Ele foi feito lado a lado com Deus e com as pessoas também que participam da minha vida. E por ser um CD com músicas de reflexão, ele foi feito com a intenção de uma pessoa tê-lo lado a lado por muito tempo.”

A leveza e a simplicidade transmitida pelos arranjos e pelas letras sugerem realmente um disco para se estar lado a lado com as pessoas, e reflexões sobre o que é realmente importante na vida. É algo que deva ser apreciado não como uma obra religiosa, escutada nos cultos de domingo e esquecida na semana, um costume que permeia a falsa espiritualidade dos cristãos de templos e não do diário, mas para ser mastigada no cotidiano, acompanhadas por dose de reflexões. Das palavras de Bruno sobre Lado a Lado na entrevista ao Som da Madeira:

“O disco é muito verdadeiro, é uma extensão destes últimos anos da minha vida, carrega uma inocência. Ele não foi pensado para uma tribo ou mercado. É um disco para ser degustado com tempo. É atemporal. É o resultado de uma coragem de saber que tenho algo que pode não ser importante para a multidão, mas pode ser importante para alguém. Se for, valerá muito a pena.”

A primeira canção do álbum, “Canção pra Você”, foi baseada em um testemunho do autor.

“No final de 2008, comprei um apartamento que estava caindo aos pedaços. Decidi reformá-lo. Eu morava com minha avó e achava que precisava ir morar sozinho, me casar etc. Queria muito uma mudança na minha vida e apliquei essa mudança na reforma do apartamento. Após a reforma, o apartamento estava simplesmente perfeito. Mas lá estava eu, sozinho na sala, olhando para aquele porcelanato lindo, mas com um enorme vazio dentro de mim. Foi então que me ajoelhei e o Espírito Santo disse ao meu coração: ‘Quem precisa de reforma é você. A casa está linda, você fez isso para chamar a atenção, ser amado, mas a casa que eu quero mexer é você. Você é o templo. Não adianta nada disso aqui, se você, a verdadeira casa, estiver em ruínas.” [Troféu Promessas, 2012]

A faixa segue a mesma ideia de “Casa” do Palavrantiga,  porém é mais romantizada, uma bela declaração, e contém reflexões sobre a abnegação e o verdadeiro templo divino. “Onde está o valor destas coisas, disso aqui sem Você” expressa perfeitamente o vazio do materialismo humano, de preencher todo o nosso vácuo de espírito com coisas passageiras, a casa interior destroçada e desocupada, sendo que a vida só terá seu valor se Deus estiver conosco.
“Simples” é uma das melhores do disco. Ela representa perfeitamente um dos supremos conceitos expressados no conjunto: a simplicidade. A canção foi debatida e usada na questão sobre a cultura artística do Reino por causa dos versos “Então, quem dirá que a arte não pode ser nossa?/ Então, quem dirá que tem que ser sem sorriso?”. Porém, essa canção me leva a pensar sobre a arte de ser simples e viver sobre esse estilo de vida. O melhor trecho da música com uma influência do músico Bob Marley reflete muito bem essa arte: “Use as coisas e ame as pessoas”. O primeiro defensor dessa prática, no entanto, não foi Bruno e nem Bob Marley, foi Cristo:

25. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
26. Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
27. E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
28. E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
29. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
30. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?
31. Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?
32. Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
33. Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
34. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
Mateus 6:25-34

Viver nas pegadas da simplicidade do Mestre significa, também, trocar as prioridades na vida. Não se torna apenas um conceito de aparência, na qual transforma apenas como nós portamos. Muda também nossos ideais, nossas buscas, os motivos das nossas orações. A vida é uma arte de amar as pessoas.

A faixa-título “Lado a Lado”, apesar de boa, é a canção menos interessante do álbum, mas uma letra bem mais complexa que as demais. De qualquer forma, o folk veloz dela anima qualquer um.

A melhor do álbum é a “Reforma”. Um dos movimentos que mais cresceu nos últimos anos com o advento da internet e das redes sociais foi o reformado, ou calvinista. Os estudos feitos pela teologia calvinista são um dos mais bem organizados, estruturados e solidificados do  protestantismo, e seu extremo cuidado no aspecto bíblico foi um dos motivos de sua explosão. Porém, a cosmovisão calvinista é apenas mais um no meio de tantos pontos de vista do cristianismo, e embora seja muito bem organizado não significa salvação. Qualquer teologia sempre se estruturará na mentalidade das pessoas, mas se o coração não estiver transformado não passará de títulos e rótulos. A verdadeira reforma não transforma a construção primeiramente, ela muda a estrutura da casa, senão qualquer teologia virará teoria. E teoria demais embriaga, como dizia a letra do “Neófito” do Resgate.

Voltando a canção, a genialidade da letra foi no jogo de analogias feitas nela com as duas passagens bíblicas sobre os odres velhos e a pérola perdida, e a verdadeira capacidade gerada na humanidade com a reforma: poderem amar.

“Os loucos que amaram mais, acharam a pérola perdida
Os loucos que amaram menos, odres velhos vinho desperdiça”

O vinho simboliza na música o Amor, a pérola perdida o encontro do homem com o Amor, e os odres velhos um indivíduo não arrependido ou não transformado. Repetindo o conceito de Simples, a composição se estrutura no Amor.

Você pode não estar apaixonado, não gostando de alguém, mas mesmo assim irá curtir a belíssima “Flores”. O melhor desse tipo de balada romântica, como “Mais uma Canção” do Los Hermanos, é conquistar seus ouvidos, mesmo sendo solteiro e sem expectativas amorosas. Quem estiver apaixonado, ou em algum relacionamento, essa música pode ser oficial da sua playlist. “Flores” é uma mistura de poesia romântica com um arranjo simples, mas encantador, uma das melhores do tema.

“Palavras Soltas” é uma excelentíssima canção. A combinação do folk cheio de feeling no arranjo à letra de declaração a Deus estala o coração do ouvinte, uma habilidade do Bruno. São composições poéticas, simples, sem o toque pseudo intelectual das letras da música contemporânea, mas são ricas e profundas. “Saberás” segue da mesma forma que essa faixa, focada numa musicalidade com mais feeling e numa bela declaração, mais poética, contudo, não tão profunda. São duas canções sublimes, e suas poesias revelam mais sentimentos do que conceitos.

“Vermelho Escarlate” finaliza o álbum maravilhosamente. Essa faixa mistura um folk com uma ideia que já havia explicado em “Reforma”. Vermelho escarlate é descrito na composição como a cor da letra inscrita nos corações dos filhos de Deus, e é baseado em 2 Coríntios 3.3.

Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.
2 Coríntios 3:3

Esses dois trechos da música explica toda a ideia dela:

“A cidade tem confrontação no amor
E a letra é vermelha escarlate
Escritas nestas tábuas, de carne e coração(…)
Não é letra mas sim sangue o conserto
E a letra é vermelha escarlate
Escrita nestas tábuas de carne e coração”

Vermelho é a cor do sangue e sangue significa vida. A letra em um papel é morta, porém, quando entra em um coração se transforma em algo vivo. Rótulos e títulos se tornarão vazios se as letras vermelhas escarlates não circularem em nosso sangue.

Lado a Lado é baseado em dois fundamentos, amor e simplicidade, e o meio utilizado foi a linguagem poética, arranjos modestos, andando sobre o folk com influências do blues e do MPB, mas que foram perfeitamente combinados. Um motivo de agradecimento a genialidade do Jordan Macedo, afinal, a ideia de gravar um álbum totalmente acústico foi persistida por ele, pois Bruno queria gravar um disco de banda.

Bruno Branco buscou principalmente com essa produção fornecer um álbum com princípios cristãos, com uma linguagem menos engessada, presa aos clichês gospel e quebrar a barreira entre o gospel e secular. Sua opinião sobre essa barreira, aliás, sempre foi confusa para mim. Apesar disso, ele é um grande músico da geração que tem surgido atualmente e o seu inicio de carreira com esse excelentíssimo trabalho merece todo respeito.

“Reforma”, “Simples”, “Vermelho Escarlate”, “Canção pra Você”, “Flores” e “Palavras Soltas” são as melhores, em ordem decrescente, do disco.

Na próxima Musicografia falarei sobre o Prato & Sino, último lançamento do compositor, e dissertar em mais reflexões proporcionadas por esse álbum.

Playlist da semana: Palavras Soltas, Reforma, Flores


Referências

Érica Fernandes, “As pessoas estão cansadas de religião”, afirma Bruno Branco. Disponível em: <http://www.lagoinha.com/ibl-noticia/as-pessoas-estao-cansadas-de-religiao-afirma-bruno-branco/> Acesso em 1 de agosto de 2015.

Som da Madeira, Entrevista – Bruno Branco. Disponível em: <http://somdemadeira.blogspot.com.br/2011/12/entrevista-bruno-branco.html> Acesso em 1 de agosto de 2015.

Wikipédia, Jordan Macedo. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jordan_Macedo> Acesso em 1 de agosto de 2015.

Wikipédia, Lado a Lado (álbum). Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lado_a_Lado_(%C3%A1lbum)> Acesso em 1 de agosto de 2015.

Comentários

comments

Previous Rocklogia - DDG, o álbum superestimado
Next 12 motivos para assistir ao filme "Você acredita?"

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *