Esta é a nossa última lista (2010 a 2015). Os cinco anos mais recentes foram contemplados, com uma série de bandas ainda não citadas. Confira nossa seleção:

Leia também as listas anteriores: Década de 70, década de 801990-19941995-19992000-2004 e 2005-2009

10º: Um Brinde ao Recomeço

Artista: Quarto Fechado
Ano de lançamento: 2012
Número de faixas: 5

Quarto Fechado - Um Brinde ao Recomeço - 2012João: Próximo, não ouvi.

Márllon: Pulo.

Phil: Eu lembro que me apresentaram esse EP há uns anos atrás, mas eu acho que não curti a voz ou alguma coisa, não lembro bem, mas não curti algo. Depois de uns meses, me acostumei e achei bem legal. A banda lançou um álbum esse ano, chamado Labirinto Meu, mas eu não curti a proposta. O EP me saiu mais ajeitadinho. Talvez outras bandas pudessem entrar aqui na décima posição, mas não é um álbum de se jogar fora, não mesmo!

Thiago: O primeiro lançamento da banda Quarto Fechado, Um Brinde ao Recomeço, é o primeiro disco em formato de EP a figurar na lista. Porém, nem por isso é desmerecido sua entrada. As cinco músicas, juntamente com o conceito do álbum e a arte gráfica, uma das melhores do rock brasileiro feito por cristãos, formam uma obra completa e conectada. O disco é aberto pela ótima “Estrada para a Perdição”, um rock alternativo rápido e agitado, com excelentes riffs de guitarra e canta sobre a perdição do coração e dos seus propósitos confusos. Vale destacar a importância desse conceito em uma era em que a razão está morrendo em virtude do relativismo sentimental que impera na cultura pós-moderna. A segunda, “Meu Barco”, com referências a uma filosofia eclesiástica, é uma ótima semibalada poética que versa sobre a ordem, a organização das coisas e a relação do ser humano com esse sistema. Ele se encontra em desordem, pois falta uma parte dentro de si. O disco inteiro, aliás, é a exposição da desordem interior em virtude da falta de algo. “Fast Food”, soando tão atual na nossa cultura que valoriza o momentâneo, o passageiro e o virtual, começa com riffs cadenciados, quase calmos, com linhas contínuas de baixo, até quebrar num refrão rápido e violento. A música retrata a geração do fast food intelectual, que é “pseuda” em todo tipo de conhecimento, e como tudo isso vai passar. Ela invoca a desejada liberdade da cultura que escraviza. “Eu Sozinho” inicia-se com guitarras abafadas. É difícil escolher a melhor do disco, mas essa certamente tem particularidades que a torna uma das candidatas. O primeiro elogio é o conjunto de backings vocals usados nas pontes, cujo resultado foi agradável. A outra é, como encontrado em toda a obra, a letra. A poesia dessa faixa diz sobre a empatia e o ato de se igualar a todas as pessoas. É nesse ato que faço o meu terceiro elogio. Apesar de que todo o projeto ter sido pessoal, eu o ouvi numa época que se encaixou perfeitamente no meu contexto. Esta canção relembrou um gesto que presenciei no passado. “De pés descalços me sinto mais puro, como se fosse capaz de voltar“. Eu tinha um grande amigo que uma vez estava conversando com um cara. Ele não queria ir a um culto por estar de chinelos e achava isso meio ofensivo, uma vergonha. O meu amigo, então, resolveu ir ao culto descalço para que o outro não se sentisse envergonhado na sua posição. O ato de se igualar. E esse gesto criou uma simbologia especial para mim, até ouvir “Eu Sozinho” expressar essa ideia. “Desordem em Mim” é quase uma continuação de “Meu Barco” pela ideia. Uma balada, a única que usa acordes de piano, é levada pelo intimismo do inicio ao fim, desde o conceito, quanto o arranjo, e se finda com os feelings do piano. Como diz o título, versa sobre a desordem interior. O EP é completo, a capa também expressa a ideia pretendida, um mundo virado de cabeça para baixo, mostrando a desordem do ser humano. Ele brinda ao recomeço, a uma reestruturação do interior. Não vou dizer que merece uma posição melhor, apesar de que o coloquei em quinto lugar, por ser uma obra de apenas cinco canções, mas valeu a entrada. Cito também o ótimo Armas de Distração em Massa da banda Os Oitavos, que por pouco não ficou na lista e só perde na musicalidade, mas o conceito é fera.

Tiago: Conheci a Quarto Fechado meses depois do lançamento deste EP. Quando a Aeroilis acabou que fui sacar a ligação do vocalista Helon com a banda. Helon Borba já fez parte da Adorelle e tocou na Aeroilis por mais ou menos um ano, substituindo o baixista original, Eduardo Galvani. As músicas da Quarto Fechado, em maior parte, tendem para a introspecção. Há uma semelhança muito grande entre o EP e o novo disco que eles lançaram este ano. No geral, acho que eles devem evoluir em alguns aspectos (principalmente musicalmente), mas seu exercício de pensar o interior humano e as crises de fé dos cristãos algo muito válido. Particularmente, gostaria que Os Oitavos ou Memora estivesse em décimo

INFORMATION

Artista: Aeroilis
Ano de lançamento: 2010
Número de faixas: 11

Aeroilis - Nada Mais Além - 2010João: Uma das obras-primas do novo movimento, sempre que me lembro de “Cega Inocência” eu viajo muito. Um dos melhores discos que ouvi de rock recente. Pena que a Aeroilis parou… e pena que tantos da maldita mídia gospel e modinhas de quinta categoria nunca deram a esse disco e banda o devido valor.

Márllon: Pulo.

Phil: Os amigos me perdoem, mas eu não ouvi esse álbum… eu esqueci, na realidade. Então, nos vemos mais adiante. 😀

Thiago: Introspectividade, assim como a Quarto Fechado, é a sensação oferecida nas canções do Aeroilis, apesar de que as camadas de teclados e pianos transportam isso com mais qualidade. Um disco bem vertical, é conduzido por letras que versam a dependência de Deus, a necessidade de deixar as coisas terrenas em segundo plano e critica a alienação. Poesia e intimidade é expressada com qualidade nesse disco. “Nada Mais Além” e o seu arranjo complexo, cheio de quebras rítmicas, teclados perfeitamente combinados aos arranjos de guitarra, “Cega Inocência” criticando as pessoas que seguem seus líderes como cegos, direcionado à alienação religiosa, “Seguirei” e os seus ótimos backing vocals, ”Pax Inflamo”, “Me Deixar“ e “Não Importa Mais” foram minhas prediletas. O notável e o que difere dos demais listados aqui é a perfeita combinação dos teclados com as seis cordas. Valeu a colocação do disco. Ótima produção.

Tiago: Um disco de menos impacto comercial que o de estreia, mas bem mais maduro. Aqui Raphael deu maior foco aos teclados e pianos. Se no disco anterior, a guitarra e o violão era forte, aqui o som tornou-se mais rico e denso. Ele é muito mais introspectivo também. As canções “Não Importa Mais”, “Passos Lentos” e “Seguirei” (com sua ótima influência beatle) são as melhores do trabalho.

8º: Mea Culpa

Artista: Saint Spirit
Ano de lançamento: 2015
Número de faixas: 14

Saint Spirit - Mea Culpa - 2015João: Ouvi pouco esse disco novo da SS, mas pelo pouco que ouvi, posso dizer: a banda só faz melhorar disco após disco. Uma das bandas mais injustiçadas do metal cristão brasileiro, pela brutalidade e genialidade das letras unidas, sem frescura, sem crentelhanismo cretino, realidade nua e crua da sociedade, tal qual o Puritan com seu Nesse Chiqueiro Ninguém Vai pro Céu e a banda Alíria com seu auto-intitulado de 2013.

Márllon: Taí uma banda que só teve a ganhar com a mudanças de formação. Tive o prazer de ver a estréia desta formação em 2009 no Metanoia Fest e já dava pra ver que tinham futuro pela frente. Em 2011 o SS nos brindou com Vanitas Vanitatum, um CD fora de série diga-se de passagem, eu sinceramente não esperava algo que o superasse. Mas eis que Mea Culpa foi lançado e sem sombra de dúvidas se tornou o melhor trabalho desses cariocas em seus 21 anos de história no underground BR. O conceito do disco é forte. Para quem não sabe, o mesmo é conceitual sobre as barbáries do Hospital Colônia (mais detalhes no livro ‘Holocausto Brasileiro’) e isso serviu como pano de fundo para um disco pesado, dinâmico, caótico e intenso. A fusão do Thrash Metal com o Djent (mais elementos de outros estilos) colaborou bastante para que Mea Culpa se tornasse o que é: Um disco de fácil audição e que impregna suas músicas nos ouvintes. Ou seja, um clássico.

Phil: Passo.

Thiago: Eu não votei nesse disco, mas que arrependimento. Misturando thrash metal, metal industrial, metalcore, death metal e até djent metal, aliado a afinações gravíssimas de guitarra, com muita distorção, riffs pesados, extremos e cheio de quebras, combinados com a bateria pulsante, acompanhando o tempo da guitarra e do baixo, e a voz brutal de Rodrigo Bizoro (muitos elogios a ele por ter levado a bateria e o vocal junto, que trabalho!) com guturais graves, do jeito que eu gosto (detesto guturais agudos e aquela nojeira de pig scream), produziu um disco moderno e, ao mesmo tempo, extremo. Porém, uma das coisas que me fez adorar Mea Culpa foi a temática. Ouvi poucos metais extremos que trabalhavam um conceito (ou eu não percebi) e Saint Spirit mandou um nesse álbum muito curioso: É baseado nos acontecimentos que ocorreram durante a existência do Colonial Hospital, em Barbacena, Minas Gerais, em que ficara famoso, na década de 1980, pelo tratamento desumano que oferecia aos pacientes. O hospital ficou conhecido como “cidade dos loucos”. As combinações da temática dos horrores vividos no hospital com o som extremo e caótico da Saint Spirit ficaram perfeitas. Mesmo apresentando esse lado brutal da realidade do hospital, o álbum usa isso como uma crítica a desumanidade. Usar gritos de pessoas sendo violentadas e sussurros no final do disco deram um ar de dramaticidade ao “Mea Culpa” e choca qualquer ouvinte que esteja preocupado com questões sobre violência e atrocidades. A capa, que usa tons escuros e avermelhados, adicionando um toque de terror ao disco, expressa todo o sentimento do álbum: um ser humano afogando nas águas em direção a boca de um monstro. Esse disco poderia até ter ficado em uma posição muito melhor.

Tiago: É um som muito bem construído. O projeto gráfico chama a atenção. Mas, certamente, meus colegas terão mais o que falar sobre a obra. Tudo o que eu dizer certamente será repetitivo.

7º: Um Dia a Mais

Artista: Tanlan
Ano de lançamento: 2012
Número de faixas: 12

Tanlan - Um Dia a Mais - 2012João: Tanlan é outra banda que deveria ser referência não no rock cristão somente, mas em todo o cenário do rock. Eu gosto mais do álbum Tudo que eu Queria, mas esse é sem dúvidas excelentíssimo, e meu conterrâneo Fábio Sampaio sempre me surpreende. Esqueçam Malta, Scalene e essas bandas de “Superstar” (que até são boas, mas passam longe do que Tanlan é). Uma banda que não fosse o maldito preconceito tanto da mídia gospel como da secular já seria muito mais conhecida e reconhecida.

Márllon: Pulo.

Phil: Primeiro álbum que eu ouvi da Tanlan. Eu me encantei logo de cara. E ainda hoje escuto com frequência! Se o álbum anterior deles (que não por acaso entrou em nossa lista de álbuns de 2005 a 2009) não me agradou tanto, esse aqui foi na medida. E até onde eu sei, esse álbum foi o que abriu mesmo as portas pra eles. Rock com pegada, letras muito legais e bem feitas, produção feita pela própria banda – o que é mais um ponto positivo – e eu até penso que poderia estar umas posições acima na lista.

Thiago: Ao contrário de Tudo que eu Queria, Um Dia a Mais soou mais religioso, mas sem perder a qualidade musical e lírica. Aliado ao post grunge e letras, tanto verticais, quanto horizontais, sobre diversas temáticas, Tanlan mandou uma obra que fez o que lhe foi proposta. “Louco Amor”, com uma boa letra sobre o amor de Deus; “Meu Nome, Meu Sangue”, com seus riffs eletrizantes de guitarra e uma letra que não me convenceu; “Um Dia a Mais”, um ótimo grunge e um refrão grudante; o single “De Onde Vem”, uma boa canção; “Fingir”, com uma introdução à lá surf rock (fiquei pensando no Dick Dale ao ouvir o primeiro segundo da música), são as melhores do disco. Eu não sei se essa posição seria justa para o álbum, por oferecer diversas e distintas sensações, como êxito e, também, insuficiência, contudo merece estar na lista.

Tiago: Considero Tudo que eu Queria um disco com letras melhores e um som mais rico também. Com Um Dia a Mais a banda evoluiu tecnicamente. A captação dos instrumentos é um aspecto interessante a se comentar. O som é bem limpo, as guitarras ganharam mais força, o som está mais orientado para o post-grunge. Mas, em termos líricos, é um disco mais religioso. A melhor música é “Fingir”, lembra mais a proposta do primeiro trabalho.

6º: Mene Tequel Ufarsin

Artista: Doomsday Hymn
Ano de lançamento: 2015
Número de faixas: 13

Doomsday Hymn - Mene Tequel UfarsimJoão: Outro que ouvi pouco, e embora tenha ojeriza de metalcore e quaisquer outras “modernidades” dentro do metal/punk/HC, reconheço que o trabalho dos caras é impressionante e genial, não é uma imitação barata como muitos por aí fazem e me dão nojo, não não, eles conseguem fazer com brilhantismo seu som sem seguir padrões. Continuem assim!

Márllon: O fato de cantar em português era um certo “tabu” por grande parte do cenário underground brasileiro que praticava um som mais extremo, mas felizmente existem grupos que apostam em nossa língua nativa e estão obtendo bons resultados com isso. E a Doomsday Hymn é um bom exemplo desse “movimento”. Seu álbum, Mene Tequel Ufarsim, tem conquistado críticas generosas por parte da mídia especializada nacional e internacional (vale lembrar que a banda foi o primeiro grupo sul-americano a assinar contrato com o selo Rottweiler Records, dos EUA), com a mistura de elementos de Thrash, Heavy, Metalcore entre outros sub-estilos que tem agradados fãs da velha e nova escola do Metal por onde o quinteto tem passado. E olha que não foram poucos lugares, pois além de abertura para nomes como Project46, Worst, Torture Squad em shows no Brasil, o grupo fez uma extensa turnê pela América do Sul, com uma aceitação excelente. Curte solos de guitarra com feeling? Aqui tem. Curte breakdowns nervosos? Aqui também tem!

Phil: Felicidade descreve. Não meu amigo, não é um álbum de rock feliz e coloridinho. Aqui é porrada na orelha! Fui eu quem fiquei felizão por ter escutado esse álbum. Eu não conhecia a banda (também pudera, o álbum é o primeiro full length deles e saiu nesse ano de 2015), mas já é dos meus favoritos do ano. Entenda: um pé no Thrash, outro no Groove, umas flertadas com Prog e Power, umas doses de Metalcore e uma pitada de Death aqui e acolá. Ufa! Bem, esse é de fato um álbum criativo, mas sem se perder no caminho, porque ainda assim é bem coeso. Ah mano, é um álbum muito bem feito! Guitarras pesadas, bateria forte, baixo presente (o que nem sempre acontece em alguns metais por aí), vocal rasgado, porém compreensível e em português. A produção é excelente, as letras são sensacionais, de verdade! E até a capa é muito massa. O amigo leitor estará fazendo um grande favor a si próprio quando parar um pouco e escutar esse álbum, porque é incrível mesmo! Os paranaenses da banda estão de parabéns! Yeah!

Thiago: Ao ver a capa desse disco fiquei bastante curioso com o conteúdo de Mene Tequel Ufarsin. Um homem com chifres na cabeça e usando um terno, parecendo simbolizar um falso profeta, outro ao fundo, levantando um papel com inscrições hebraicas (parece um rebelde, algo do tipo), e uma caveira no chão, em pose de súplica. Não ouvi o disco com a atenção devida, não sou bom para comentá-lo, mas é outra produção extrema, equilibrando o thrash metal, com influências do crossover thrash, riffs pesados e complexos, flertando com o prog metal, misturados ao semigutural do vocalista. Valeu entrar na lista, mas prefiro o Mea Culpa do Saint Spirit.

Tiago: É curioso que o disco consegue misturar vertentes totalmente diferentes e as vezes controversas do metal. Já disse o preconceito que tenho com metal cantado em língua estrangeira… Neste caso, com as músicas em português, vi maior honestidade.

5º: Apocalypsenow

Artista: Antidemon
Ano de lançamento: 2012
Número de faixas: 11

Antidemon - Apocalypsenow - 2012João: O mais bem gravado e produzido disco do Antidemon, a nível internacional (único disco brasileiro, à exceção do citado em listas anteriores Southern Extremities – uma coletânea -, lançada pela Rowe Productions, do baixista Steve Rowe do Mortification). E nesse disco eles inovam, colocando até mesmo um louvor em death metal (coisa realmente rara no gênero), músicas em inglês, inclusive a polêmica “Welcome to Death”, enfim, é um discaço, embora eu prefira o Demonocídio, mas OK, esse é o disco mais death metal à vera da banda. Curti muito mesmo.

Márllon: OK, Demonocídio é o maior clássico da banda, mas o título de melhor trabalho não tem como não ser de Apocalypsenow. Com uma produção perfeita para uma banda do estilo (o álbum foi gerado no famoso DaTribo Estúdio, a Meca da podreiragem nacional), o grupo soltou doze pedradas que mostram o ápice do conjunto. Pela primeira vez um álbum da banda foi lançado por uma gravadora, em questão a Rowe Productions da Austrália, e teve composições em inglês, além de uma faixa em espanhol e o restante em nossa língua nativa. Já não escuto mais a banda como antes, mas se me pedirem uma indicação do que ouvir do Antidemon, meu pensamento vai direto neste álbum.

Phil: Depois da esquisitice que foi o Satanichaos, estamos de volta com o Antidemon que conhecemos, finalmente. Um CD brutal, pesado, mas agora bem trabalhado musicalmente, acredite se quiser. Não que os anteriores não fossem, mas as canções me pareceram “bem nascidas”, se é que me entende. Enfim, sai desse post e vai ouvir o disco, por favor!

Thiago: Até esse trabalho, o som do Antidemon se resumia a grindcore, músicas muito curtas, rápidas, velozes e pesadas, com riffs sempre iguais de guitarra afinadas em tons baixos, a temática antidiabo e a voz pig scream do Batista, enfim, faltava criatividade. Apocalypsenow representa essa evolução. Deixou as velhas produções curtas, baseada no grind, e utilizou-se do death metal para algo brutal da mesma forma, com músicas mais estendidas, riffs diferenciados, mais quebras de ritmos. Não sou fã de death também, e nem de Antidemon, mas a banda cresceu muito mesmo com esse disco. Mereceu estar na lista, mas creio que o Mea Culpa do Saint Spirit poderia ter figurado aqui. Apesar de ser baseada bastante no death metal, Apocalypsenow não deixou o lado grindcore, mas o fez com mais criatividade do que o velho grind que eu estava acostumado a ouvir.

Tiago: Depois de Satanichaos e Depois da Guerra entrarem na última lista, o mínimo esperado era que Antidemon e Oficina G3 aparecessem nesta lista, pois fizeram discos melhores que seus anteriores. Antidemon entrou (mesmo numa posição inferior). É o melhor trabalho da banda. Tem letras mais polêmicas, menos infantis, um som mais encorpado, vale a posição. De longe, “Welcome to Death” é a melhor música.

4º: Destrua o Controle

Artista: Militantes
Ano de lançamento: 2010
Número de faixas: 13

Militantes - Destrua o Controle - 2010João: Militantes é uma banda que tem gente que rejeita ou repudia devido aparentemente os vocais mais “bizarros” do vocalista original, ou por ser um “pop punk” e ainda por cima gospel e baba-ovo de instituição religiosa em excesso, mas nesse disco eles “chutaram o pau da barraca”. Um discão, que eu no dia que baixei pra ouvir no site da banda (isso mesmo, atitude punk à lá Offspring, [risos]), foi um susto agradabilíssimo pra mim. “Mídia da Desgraça”, o que dizer dessa faixa? Alias, esse é o melhor disco sem dúvidas deles, embora nessa época outras bandas de punk cristão como HxBx 12, F.M.I., Crush Hell Machine (atual CRUSH), Trombada, HM12 e outras (recomendo, aliás, a quem interessar o documentário Cristo Suburbano, sobre bandas de punk cristãs brasileiras) tenham feito um som bem mais autêntico, Militantes conseguiu provar que poderia ser muito mais que uma banda cosplay de Blink 182 com vocal do Felipe Dylon (risos) e mostrou sua qualidade com tudo.

Márllon: A voz do vocalista me irrita demais para conseguir com que eu ouça qualquer CD deles completo.

Phil: Mais um que esqueci de ouvir. Perdoem novamente. Mas acho que meus companheiros terão um bocado pra falar aqui.

Thiago: Deixando o punk com letras infantis e gospel, Militantes lançou um disco eletrizante, bastante hardcore, mais pesado, com letras de críticas sociais, políticas e religiosas, uma combinação perfeita. É impossível não querer bater a cabeça com “Destrua o Controle” e querer quebrar algo pela revolta do disco. Power chords velozes de guitarra e vozes às vezes latidas de Cleber recheiam a produção do álbum. “Mídia da Desgraça” é a melhor, faz uma crítica pesada a televisão e a mídia. É um hardcore de bater cabeça. “Covarde” introduz bem o cd com a sua ponte grudante.” Sujeira no Senado” persiste na quebradeira até o “Destrua o Controle”. “Respeite Minha Fé” passeia por uma musicalidade mais punk em algumas partes, outras mais hardcore em outras. “Inimigo” segue nos mesmos passos. “Outra Forma” proporciona, entre harmônicos artificiais e riffs de guitarra, uma quebra de peso, e se desvia completamente para o punk. “Programado”, entre vibratos, riffs elétricos e industriais, notas dissonantes de guitarras, é uma das melhores também. O disco continua nesse passeio no hardcore e no punk rock, como a boa “E o Próximo?” e “Neardental”, com as mesmas letras de crítica. Ótimo disco e, assim como Apocalypsenow foi para Antidemon, representa uma enorme evolução para Militantes.

Tiago: Melhor disco dos Militantes. Sem letras infantis, sem apologia ao apostolado Renascer, o disco contém muito menos referências religiosas que os outros três álbuns inéditos da banda. Marcando a despedida de Cleber e também a produção de Clemente Nascimento, ícone do punk no Brasil, o trabalho viaja bem entre o hardcore punk e expõe músicas agradáveis, como “Mídia da Desgraça” e “Sujeira no Senado” (muito contundente em 2015).

3º: Esperar é Caminhar

Artista: Palavrantiga
Ano de lançamento: 2010
Número de faixas: 13

Palavrantiga - Esperar é Caminhar - 2010João: Amei esse pódio. Esse disco é um dos meus pupilos da minha coleção, comprei no início do ano agora. Cara… eu não sei o que dizer desse álbum. Sério. OK, é muito “superestimado” pelos críticos de plantão, não é a coisa mais brilhante do universo, não é algo que ninguém antes tenha feito (nos EUA já é mais comum que tudo isso a muito tempo já, vide Bruce Cockburn, Jars of Clay, Sam Philips, até mesmo o saudoso “pai do rock cristão” Larry Norman já fazia – e antes do Palavrantiga, Tanlan e Aeroilis já faziam algo assim no Brasil – sem contar Janires, Rebanhão, Complexo J, Catedral e alguns outros precursores), mas é inegável que esse atingiu patamares nunca dantes vistos. Amo muito.

Márllon: Apesar de curtir mais Sobre o Mesmo Chão, não tenho o que reclamar deste trabalho. Essa mistura despretensiosa de rock BR, rock inglês, MPB e letras poéticas e fora do lugar comum atingiu um campo do meu gosto musical que eu nem sabia que existia (risos). Acho que o único ponto um “pouco” negativo em relação a Esperar é Caminhar vem pelo fato de utilizar quase todas as faixas de seu EP de estréia em suas versões originais, recebendo apenas uma nova masterização. Mas não tem o que se falar também de faixas como “Casa”, “Feito de Barro”, e as demais repetidas. Das inéditas fico com a clássica “Rookmaaker” e “Vem Me Socorrer”. Indicado para aqueles momentos de introspecção ou uma recepção mais formal de amigos e familiares.

Phil: Essa opinião é mais fanática e emotiva do que técnica. Que banda criou mais frisson na galera entre 2010 e 2013, se não foi o Palavrantiga? Se foi outra me desculpem (risos). Mas esse álbum é importante demais, cara. Eu me lembro que me apresentaram a banda como o “Los Hermanos de Jesus”, sério (risos, muitos risos). E eu não gosto de Los… mas de Palavrantiga eu gostei em dois tempos! Eu ainda não era conhecedor de rock cristão brasileiro como sou hoje (e ainda conheço bem pouco) mas achei muito inovador, letras com “cara de crente” mas que eram inteligentes e bonitas ao mesmo tempo, bem bíblicas inclusive, e musicalidade sem igual. Só a produção que era aquém, algo resolvido no segundo álbum. É um rock bem brasileiro mas sem ser clichê, só ouvindo pra entender. Era um som que não se achava com facilidade… não que não existisse, Aeroilis que o diga, mas Palavrantiga caiu no gosto do povo muito rápido com esse primeiro álbum full deles (mainstream curtiu isso).

Hoje eu olho pra trás e vejo pontos semelhantes a Janires/Rebanhão, cada um a seu tempo. Fato é que dia após dia eu via gente e mais gente ouvindo e gostando deles. Nós fãs (me incluo) também crescemos muito com esse álbum, e falando em linguagem cristã: Deus falou muito comigo através das canções. A banda saiu do underground pro mainstream em pouco tempo, e ainda hoje que estão em hiato (pra tristeza dos fãs, e pra semelhança com Los Hermanos) eles tocam nos ouvidos de muita gente, inclusive nos meus.

Thiago: Esse disco tem alguns paradoxos. Colocado dentro da proposta de acabar com o muro entre o gospel e secular, a letra de “Rookmaaker” é confusa, pois ela afirma, categoricamente, a existência de um muro. Aliás, todos os autores, movimentos citados na música valem ser explorados, a única importância desta canção é o fato de ser tão citada e famosa, pois de resto, é muito contraditória. “Eu fico com a escola de Rembrandt/ Você no dadaísmo de Berlim/ A cidade está cheia de tinta/ Na cidade dos homens tem gente que consegue ver/ Mas os outros estão cegos pra Ti (…)/ Vem, jogando tudo pra fora/ A verdade apressa minha hora”. Comecei com as críticas, mas esse disco é muito bom e vale a posição. Muito superior ao posterior, Sobre o Mesmo Chão, é notável a quantidade de candidatos a singles no Esperar é Caminhar. Com influências do rock britânico, herança de sua época na banda de Heloísa Rosa, e do samba rock/indie/MPB do Los Hermanos, Palavrantiga mandou feras canções, algumas trazidas do primeiro EP, como “Casa”, “Amor que nos Faz Um”, “Pensei“ e “Feito de Barro”. Destaque para a controversa “Rookmaaker “, “Palavra Antiga “, “Vem Me Socorrer” e “Esperar É Caminhar”. “Casa” é uma bela poesia baseada na passagem de Atos 17.24, misturada a um bom rock inglês; “Amor que nos Faz Um”, outra bela poesia, fala sobre o amor, e como ele conecta as coisas, e a falta de empatia, com claras influências do rock do LH, principalmente nos arranjos de guitarra; “Pensei”, e seu riff punk de guitarra aliada a voz grave de Marcos na introdução da música, quebrada pelas viagens abrasileiradas e pelo samba quase no final da música (Marcos Almeida deve ter pensado “naquela música” do Los Hermanos, a “A Flor”); “Feito de Barro”, seguindo a mesma linha, britpop e indie rock, mas também com uma quebra musical no final, só que sem viagens; “Rookmaaker”, de musicalidade interessante, flertando MPB e influências brit; “Palavra Antiga”, mais grooveada, com influências do funk soul, aliada ao rock inglês, e os teclados, que se encontram audíveis quase no disco inteiro; “Vem Me Socorrer”, uma balada folk, exaltando o violão e um acompanhamento mais calmo de guitarras; e “Esperar É Caminhar”, outra balada, é uma boa produção e conteve a participação de Thalles, quando ele não era tão polêmico (e conhecido) como agora. Citei apenas essas músicas, mas é um CD bom de ouvir por todo, todas as faixas são boas. Para quem gosta de músicas com conteúdo cristão de forma diferenciada e mais poética, algo bem abrasileirado, Esperar É Caminhar é uma boa pedida.

Tiago: Britpop não é nenhuma novidade no cenário cristão brasileiro. A primeira banda a fazer algo do gênero foi o Resgate no álbum homônimo, em 1997. O disco do Palavrantiga não tem nada de revolucionário, se você olhar bem. Mas o vocalista, guitarrista e tecladista da banda, Marcos Almeida, é um baita músico e este trabalho veio mostrar suas habilidades como intérprete e letrista. As músicas mais marcantes do quarteto estão aqui: “Feito de Barro”, “Vem me Socorrer”, “Casa”, “Seguro Vou” e “Amor que nos Faz Um”. Sobre o Mesmo Chão já é um disco mais brasileiro, só que menos coeso. Militantes deveria estar em terceiro.

2º: Este Lado para Cima

Artista: Resgate
Ano de lançamento: 2012
Número de faixas: 12

Resgate - Este Lado para Cima - 2012João: MEU XODÓ! Amo esse disco, e é tão bom ver esses caras evoluindo nas letras e botando pra quebrar. Eu nem sei por onde começaria falando desse álbum também, enfim, obrigado novamente Paulo Anhaia, não larga o Resgate nunca mais! Esse disco é pesado, relembrando um pouco as origens do Resgate, e ao mesmo tempo com as melhores letras deles. Pra mim esse poderia estar na frente do primeiro lugar, mas OK, o primeiro lugar é realmente inquestionável.

Márllon: Uma bela continuação do trabalho anterior. O fato de serem um quarteto novamente tirou o grupo da mesmice e forçou-os a arregaçarem a manga e fazer algo que honrasse o seu legado, e ninguém duvida de que eles conseguiram isso. Algumas das letras mais ácidas da banda estão aqui. “Eles Precisam Saber” é daquelas que enfiam uma faca no coração de tão afiada que é. Mas claro que o bom humor deles não deixa de estar presente, como evidencia e muito a faixa título (risos). Gosto da sonoridade “rock de tiozão” aqui presente, é o que eles sabem fazer de melhor e sempre acertam. O uso de petsofone em “Errando e Aprendendo” foi uma sacada bem legal e trouxe um pouco de frescor pra sonoridade da banda. A presença de Dudu fez falta? Para mim, não.

Phil: Eu creio que esse álbum deveria ter sido o primeiro dessa lista, e parte da explicação estará lá na análise do vencedor dessa lista, no entanto fico feliz que esteja no pódio. Depois de Até eu Envelhecer e Ainda não é o Último, eu estava na expectativa pra saber qual seria o nome do próximo álbum (risos). Veio Este Lado para Cima e eu só pensei: “Eles estão é mais vivos do que nunca… vão virar a cabeça de todo mundo!”. A de todo mundo eu não sei, mas a minha virou, com certeza, e até onde eu sei virou a cabeça das pessoas a quem eu indiquei o álbum. Foi dos álbuns que eu mais ouvi em 2014 e 2015, e se o amigo leitor for ouvir provavelmente vai entender na prática. O que imagino é que (durante e) após a saída da Renascer, os caras mudaram bastante, algo que se refletiu nas letras e até nas entrevistas. Acho que esse álbum aqui foi o que consolidou tais mudanças, onde voltaram a fazer as coisas do jeito de sempre, mas agora com a cabeça diferente. Quero dizer: inteligência, humor e conteúdo bíblico (agora sem churumelas Renascerísticas), envoltos numa capa de rock ‘n roll do bom, e com bastante pegada, especialmente nas faixas “Em nome de quem?” e “Sempre tem uma assim”. Destaque para “Eu estou aqui” e “Eles precisam saber”. Ah, e pra faixa-título: Eles provam que a zoeira não tem fim. Gravaram ao contrário, só pela brincadeira mesmo (mas ao final do disco é tocada do jeito certo).

Thiago: Falar do primeiro e segundo lugar é uma honra e é impossível evitar certa fanboyzice para comentá-los. Este Lado para Cima representa uma mudança musical para o Resgate, deixando o rock britânico até antes muito utilizado, para uma sonoridade mais crua, sem os hammonds de Dudu, que havia saído da banda para seguir a carreira de produtor musical (que pena) e mostrando toda a evolução conceitual e teológica da banda, desde Ainda não É o Último. É aberto pela ótima “Eu Estou Aqui”, possuída de um refrão marcante, e já mostra a evolução lírica que sofreram. Persistindo na mesma qualidade musical, “Eu Só Preciso Acreditar” manda uma canção agitada, embelezadas pelas batidas de guitarra, e um refrão também grudante, como a música inteira, com uma letra exibindo a suficiência de Cristo. “Errando e Aprendendo”, uma das melhores, ou mesmo a melhor, é um folk magnífico com aquela letra sobre crítica a falsa santidade e a síndrome de perfeição, levada pelo ukelele e os assobios de Zé Bruno. Música foda. “O que não Precisa” mantém o embalo, faixa muito fera, destruindo toda a perfeição do ser humano, mostrando “o que não precisa”. “Em Nome de Quem?” é um rock and roll, com riffs eletrizantes, solos bluezzísticos e backing vocal que ficam na sua cabeça e nunca mais vão embora. Expõe uma ótima letra crítica, perguntando em nome de quem fazemos tanta maldade. Quebrando a velocidade da anterior, aparece “Fora do Sistema”, uma das melhores do disco. A ideia dela anda sobre os belos paradoxos do evangelho e sobre o desejo de andar fora do sistema humano, caminhando mais perto da liberdade divina. É levado por uma bela balada de notas de guitarra. “Eles Precisam Saber” é, também, fodástica. Criticando toda a religiosidade, a hipocrisia religiosa, os exageros do neopentecostalismo, da teologia da prosperidade, a faixa exibe uma semibalada, finalizada por solos surpreendentes de Zé Bruno e Hamilton. “Inocente”, mesmo curta, é bela. Apresenta dedilhados de guitarra e arranjos de cordas sinfônicas com uma bela letra, a canção mais distinta do disco. “Sempre Tem uma Assim”, apesar de eu pensá-la como a canção menos forte do álbum, mantém a qualidade e o embalo. A faixa “Este Lado para Cima” é uma música invertida e, no final da faixa “Recomeçar”, mostra a versão normal, um coral cantando uma das ironias do disco, o lado humorístico do Resgate. Até hoje não entendi a ironia (risos). “Quem Sou Eu?”, uma das melhores também, é uma balada introduzida por boas execuções nas seis cordas, e contém bons solos, mas, novamente, a beleza está na letra, cujo conceito fala sobre a complexidade do ser divino, mas da suficiência da fé e da pequenez do ser humano em virtude da eternidade de Deus. “Recomeçar”, outra balada, mantém a qualidade, sobre o recomeço na caminhada em virtude das falhas humanas. Comentei música por música, porque o disco é completo e merece ser citado por completo. Ele mostra a evolução do Resgate, semeada por anos de reestruturação conceitual e teológica. O disco é para pessoas que querem ouvir canções sobre a humildade, a finitude e as falhas humanas, sobre a grandeza de Deus em virtude de nossa miséria, tudo com uma boa dose de crítica religiosa. A posição é completamente justa e esse álbum é muito superior que os debaixo, só não mais que o primeiro lugar, cujo fruto é uma obra prima da música cristã.

Tiago: Antes tarde do que nunca. Este Lado para Cima é o melhor disco para narrar o processo de um deslumbre de um cristão pós-neopentecostal. Os caras do Resgate viveram na pele, e registraram em músicas. Mais cru, mais forte e bastante diferente do disco anterior, contaram novamente com Paulo Anhaia na produção. Destaques para “Eles Precisam Saber”, “Errando e Aprendendo”, “Em Nome de Quem?” e “O que não Precisa”. Se a temática do álbum e algumas letras não fossem tão ácidas e diferentes dos projetos anteriores, Dudu Borges faria uma falta danada. Ainda bem que o Zé já disse que só está aguardando tempo para sair um disco do Resgate novamente assinado pelo Dudu.

1º: Ainda não é o Último

Artista: Resgate
Ano de lançamento: 2010
Número de faixas: 12

Resgate - Ainda não é o último - 2010João: Renasceram nesse disco. Ou num trocadilho infame, eles resgataram a si mesmos nesse álbum (risos). Um dos melhores discos de todos os tempos na música cristã. Esse é um dos discos que mais precisávamos ouvir nas rádios evangélicas no lugar de tanto vendido para o mercado gospel de última categoria. Uma lástima que vivemos num maldito mercado no mainstream que continua elevando à obras-primas um monte de lixo cheio de heresias do gênero “não morrer enquanto a promessa não se cumprir” ou “quando ver você na bênção vai se arrepender, na plateia e você no palco”, entre outras bobagens e imundícies vendidas como “música cristã de qualidade”. Renegam esses discos por serem de rock, e rock ainda é pra muito cristão sem visão real uma coisa “do demônio”. Existem muitos que tão nessa só pela fama ou dinheiro, ou só pra se divertir e até mesmo escandalizar a fé, é verdade, mas bandas como Resgate, Fruto Sagrado, Matizes, Palavrantiga, Hibernia, Tanlan, Lorena Chaves, Quarto Fechado, Os Oitavos, bandas de metal e punk cristão e até fora do rock, como João Alexandre e Stênio Marcius, continuam a mostrar que existe esperança pra nossa música cristã poder ter alcance sem limites e mostrar nossa fé sem crentelhanismo, evangelicalismo, mas também sem negar as raízes do que cremos. É possível ir além das quatro paredes do templo sim, e continuaremos a provar isso, dia após dia, a despeito dos fariseus e dos que não nos apoiam, nossa fé e nossa luta permanecerá firme até o fim. “Atravessar o deserto e depois de tudo ainda crer na promessa”…

Márllon: Nesse álbum, na minha opinião, o Resgate ressurgiu como uma fênix. Quando ninguém mais esperava nada deles os caras apareceram com um contrato com a Sony Music, um CD novo e revigorante, cheio de excelentes canções e letras memoráveis. O que falar de um álbum que tem “A Hora do Brasil”, “Depois de Tudo”, “Neófito”, “Jack Joe and Nancy In The Mall (The Book Is On The Table)”, “Transformers” e “Vou me Lembrar”? Sinceramente, Ainda não É o Último fala por si só. Lugar mais do que merecido.

Phil: Aqui eu fico com um pé atrás. De doze faixas eu devo curtir umas quatro… Fica meio difícil analisar bem um álbum assim, não acham? Mas não me levem a mal: eu reconheço a importância do álbum pra banda e para o rock cristão brasileiro em geral. Mas eu não consigo engolir esse disco, cara. Acho que mesmo com a mudança de igreja, de gravadora e de mente esse álbum não fez jus ao que o Resgate seria capaz de fazer, em minha opinião! Explico: vocês aqui vão poder me chamar de doido, mas uma tríade que eu identifico neles é irreverência, inteligência e Bíblia, e eu acho que o quesito irreverência sobrou e o bíblia ficou aquém do esperado, de acordo com o histórico deles. Também achei meio fraco musicalmente, mas é questão de gosto mesmo. Entretanto, repito que pode ter sido “efeito” das mudanças… ou eles quiseram viajar mesmo, afinal que artista nunca quis fazer algo diferente do que vinha fazendo? O álbum não faz meu estilo, porém, dou meus parabéns pro primeiro lugar em nossa lista!

Thiago: Finalmente o melhor da lista, sem dúvidas nenhuma. Assim como o disco anterior, é impossível comentá-lo sem certa fanboyzice. Guiadas pelas guitarras de Zé Bruno e Hamilton combinadas com os arranjos de piano, órgão hammond, piano wurlitzer e piano rhodes de Dudu Borges, o grupo formou uma sonoridade fodástica. É introduzido por “A hora do Brasil”, um hard fera e um dos melhores do CD, com participação do guitarrista Edson Guidetti no solo. A letra é uma crítica social, principalmente aos jornais que se diziam amordaçados pela censura, mas agora imprimem a própria ditadura. O single “Depois de Tudo” mantém a qualidade, com ótimos riffs de guitarra e um timbre muito interessante, lembrando-me violinos distorcidos. “Outra Vez” é uma das minhas baladas preferidas de toda a discografia do Resgate. Com uma sonoridade folk rock, meio rural, entremeada por belos acordes de violão, arranjos de hammond e slide de guitarra, a canção tem uma letra sobre descansar em Deus nos tempos difíceis, mas sem clichês, na verdade, bastante irônica. Compara-O a um colchão. Muito depressiva, contudo esperançosa. “Genérica”, bem britânica, critica a hipocrisia, mantendo a mesma qualidade das demais. Novamente uma canção FODA, “Neófito”, creio eu, a melhor música do Resgate, é guiada por ótimas camadas de piano de Dudu e riffs inesquecíveis de guitarra, combinadas a uma letra que combina crítica à teologia da prosperidade, a religiosidade e um bocado de coisas com um teor de sarcasmo que só Zé Bruno conseguiria criar. A humorística e curiosa “Jack, Joe and Nancy in the Mall” também é fodástica, uma das melhores da banda. A grande sacada é ter usado versos em inglês, mas que entregam também uma mensagem em português. Que criatividade! Ela é levada por influências bastante britânicas, usando o country rock, com arranjos de banjo, encaixadas e perfeitas produções de piano Rhodes e guitarras com timbres ingleses (lembrou-me os usados em A Night at the Opera do Queen). “O Vesúvio” contém loucos riffs de guitarra e uma das melhores interpretações de órgão hammond por parte de Dudu (a música tem solo de órgão), que mitou nesse disco. “Tudo Certo”, mantendo o padrão do disco, mostra um pop rock de primeira, guiadas por um violão e intercaladas por ótimos riffs de guitarra e de órgão, e a voz de Zé Bruno cantando versos bem confessionais sobre a glória divina. “Tranformers” é a típica faixa rock and roll do Resgate, com bastante ironia. “Uma Vuelta Más” persiste na qualidade musical das faixas antigas, com uma pegada bem mexicana, tendo participação de Augusto Cabrera no vocal. “A Terapia” é aquela faixa esquizofrênica, tipo “O Médico e o Monstro”, também uma das minhas preferidas do disco. Combina perfeitamente arranjos de teclas e cordas elétricas. “Vou me Lembrar”, uma balada e a última faixa, exalta acordes de violão, interpretações de piano e uma bela letra. Geralmente considerada como uma das melhores do disco, considero-a apenas uma das boas produções de Ainda não é o Último. Esse álbum representa um enorme avanço na carreira da banda, com relação ao seu antecessor, o Até Eu Envelhecer, pois mostra uma repaginação na identidade teológica e conceitual do Resgate, já que os integrantes haviam saído da Renascer, e toda a influência negativa dessa igreja ter sido cortada deles. Além disso, o disco pode não ter toda a complexidade musical nas guitarras de Zé Bruno e Hamilton, sem muitos solos, mas combinou perfeitamente esses instrumentos aos hammonds e piano de Dudu Borges, cuja desenvoltura esbanjou nas teclas. É um dos melhores discos, não só dessa lista, mas do rock cristão brasileiro. Resgate dominou o pódio com muita justiça, e esse é o melhor com toda certeza.

Tiago: Certeza que meus colegas preferem o Este Lado para Cima, mas não tem jeito: Tudo em Ainda não é o Último funciona. Dudu Borges conseguiu encaixotar, com aquela forma redonda chamada de “pop” elementos de todos os anos do Resgate. É um disco mais simples que o anterior Até eu Envelhecer, mas corrige todos os excessos. Une críticas sérias e bem subliminares (“Genérica” e “Vou me Lembrar”) com músicas muito descontraídas (“Jack, Joe and Nancy in the Mall” e “Transformers”), sem falar em toda a vibe retrô que o álbum transmite. Você tem quatro caras que fazem um rock bem “garagem” juntamente com um quinto elemento que é fã confesso de Queen e Beatles. Obviamente, o resultado é este. É a essência do pop: Direto, eficiente e envolvente. Não é à toa que pela primeira vez eu ouvi várias destas músicas tocando nas rádios locais.


A lista foi compilada através de votos dos participantes. Desta vez, Jhonata não participou.