Rocklogia – Banda Azul e morte de Janires


A segunda metade da década de 80 já tinha chegado e Janires já tinha provado, nos dois primeiros álbuns do Rebanhão que seu talento estava bastante acima do que a cena cristã da época (e antes dela) mostrava. Após criar e liderar uma banda de sucesso, gravou um disco solo bastante pretensioso, intitulado Janires e Amigos (que na década de 90 foi remasterizado e incluído na discografia do Rebanhão). Mas diferentemente do que se poderia presumir, o músico não era acomodado e queria fazer mais. Pedro Braconnot, em entrevista já disse que o grupo não conseguia acompanhar seu ritmo. A saída era algo necessário, mas tranquila o suficiente para que os três integrantes restantes (Braconnot, Paulo Marotta e Carlinhos Felix) soubessem qual caminho seguir.

Do Rio de Janeiro, Janires foi acolhido na cidade de Belo Horizonte. Na capital mineira localiza-se a Mocidade para Cristo, mais conhecida como MPC, um movimento cristão. O cantor tornou-se locutor de um programa chamado Ponto de Encontro, e nesta época gravou um LP de mesmo nome que seria distribuído pela MPC.

O álbum Ponto de Encontro, apesar de pouco conhecido é de certa forma importante para entendermos a cena musical cristã da época que se esforçava para fugir do patamar comum. Como artista solo, Janires regravou “Casinha”, mas o destaque fica para a inédita “Paz pra Cidade”, do compositor, gravada com o Rebanhão. Essa canção é sua última gravação com a banda. No disco, também tem “Pra Você” da Sinal Verde, e também músicas dos Vencedores por Cristo, Grupo Pescador, Jovens da Verdade, entre outros.

Um projeto que deu certo e teve Janires como um dos mentores foi o Som do Céu. Em abril de 2014, foi realizado mais uma de suas edições, comemorando 30 anos de Som do Céu. O evento reúne vários músicos e bandas cristãs comprometidos com a arte. Sua primeira edição ocorreu em 1985, e conteve a participação do Rebanhão, Vozes da Promessa, Grupo Logos e Quarteto Vida.

Janires passou a frequentar e tocar no “Clubão” da MPC. Alguns jovens, que estavam montando uma banda também o frequentavam. Eram Guilherme Praxedes, Dudu Guita, Moisés di Souza e Dudu Batera. Logo, Janires tornou-se vocalista daquele grupo, que não tinha nome. A princípio era Banda MPC, mas no ano seguinte mudaram para Banda Azul.

Durante essa época, a vida do cantor prosseguiu bastante agitada. Conheceu vários músicos, amigos e realizou o sonho de viajar ao exterior. No contexto nacional, o Brasil vivia o fim da ditadura militar e a chegada da redemocratização. Todos estes acontecimentos influenciaram as letras do álbum de estreia da Banda Azul. E Janires seria o principal letrista delas.

Em julho de 1987, a banda já estava gravando o álbum num estúdio do Rio de Janeiro, com Janires trabalhando como produtor musical. A sonoridade, além da própria pegada progressiva se misturava a outros gêneros musicais. Do projeto, “Veleiro”, “Canção das Estrelas”, “Foi por Você” e “Meninos da Rua” são os grandes destaques. Já, a faixa-título, “Espelho nos Olhos” é especial pela sua abordagem autobiográfica, um pouco nostálgica. Nesta faixa, o cantor relembrou sua infância, sonhos e como Cristo mudou sua vida. Por suas várias viagens, diz no final: “Mas, agora já é hora / De ir embora viajar / Descobrir outro mundo, outro lugar / Levo no peito saudades de vocês…“. Por coincidência, os versos fariam bastante sentido com sua morte.

Curioso que, Janires não planejava ter uma vida “normal”: casar, ter filhos, bom emprego. Aos quase 35 anos, sua família eram seus amigos. Sua vida era vivida através da música. E compor, projetar músicas era atividade constante. A Banda Azul mal gravou Espelho nos Olhos e o cantor já sonhava com um álbum conceitual. Em seu disco solo Janires e Amigos, Janires gravou “Mamãe”. Nesta época, ele já tinha uma música para os pais e até mesmo uma homenagem à sogra. Em importância a família, o músico queria fazer um trabalho sobre este tema.

O tempo passava e Janires não podia parar. Ele precisava viajar do Rio de Janeiro para Belo Horizonte, onde participaria de mais um Clubão. Mas, como muitos devem saber, as estradas no trajeto entre as duas capitais são cheias de curvas e relativamente perigosas. E, numa destas curvas, no município de Três Rios, o ônibus em que Janires viajava envolveu-se num acidente. Somente o músico morreu. Deus o levou para si. Eram 11 de janeiro de 1988.

Janires foi sepultado em Brasília, cidade na qual viveu parte de sua vida. Dentre os presentes, familiares do cantor, integrantes da Banda Azul, além de outros músicos, como Carlinhos Felix.

A Banda Azul decidiu continuar. Espelho nos Olhos foi lançado depois da morte de Janires, no final de maio de 1988. Reunindo canções não gravadas do músico, retrabalhadas e outras de demais integrantes, depois lançaram Final do Túnel no ano seguinte. Mas nenhum trabalho posterior da Banda Azul conseguiria alcançar o mesmo patamar de Espelho nos Olhos.

Leia também: Depoimento de Carlinhos Veiga sobre Janires / Entrevista com Moisés di Souza

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=F82qJmSzkHU]

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  1. […] do Rebanhão e Banda Azul, Janires teve uma infância muito difícil. Abandonado pelo pai ainda pequeno, e criado apenas por […]

  2. […] Janires, sem Carlinhos Felix, sem Paulo Marotta, sem ninguém. Pedro Braconnot era o único integrante […]

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