Rocklogia – A verdade sobre o preconceito ao “rock cristão”


Antes de tudo, é importante salientar que, eu particularmente considero muito hilária e ridícula a expressão de opinião sem estudo, e principalmente experiência. Em um contexto virtual em que as pessoas são vitrines, prontas para exibirem máscaras de pseudoconhecimento, a situação torna-se mais notável. Cito porque, o que vejo de ateus fazendo críticas à religião e a espiritualidade (lembrando que são duas coisas distintas) sem uma gota qualquer de raciocínio e de conhecimentos práticos, além de religiosos, principalmente cristãos que citam opiniões ferrenhas a respeito do rock sem ao menos terem lido sequer a história do gênero musical é uma situação quase generalizada. Isso para não dizer no mundo real, em que estas características são ainda mais gritantes.

A respeito desta divisão entre rock versus religião, tenho uma imagem que, embora não caracterize a situação com clara exatidão é de: existem dois lados estáveis e um pequeno espaço de intersecção altamente instável. De um dos lados estáveis, está o rock sem ligações religiosas, e consequentemente grande parte de seus ouvintes. De outro lado, estão religiosos completamente fechados ao estilo musical, e religiosos que, ao menos toleram um “rock religioso” (abaixo vamos abordar a questão da religião como estilo). Na intersecção, estão pessoas não religiosas e uma quantidade de religiosos (no caso, em meu exemplo abordando o cristianismo) tolerantes, ou seja, que transitam pelos conteúdos dos dois lados. Entretanto, a quantidade de pessoas nesta última situação é extremamente menor em relação aos demais, além de que não são de forma alguma bem vistos por grande parte destes.

Mas, o que seria o rock cristão? Basicamente, um rock como qualquer outro. A distinção por religião apenas esclarece que, obviamente existe uma separação muito forte entre a religião e as demais coisas. É culpa da religião? Talvez sim, porém o fato mais importante está é que, todo o tipo de diálogo que tenta desvirtuar este paradigma é fortemente desencorajado. A separação pelo rótulo limita o alcance da arte, todavia não possui apenas efeitos negativos. O rótulo também serve para criar e guiar os nichos, embora em muitas situações os rótulos separam conteúdos semelhantes. Tratando o cenário nacional, ao qual está mais próximo da nossa realidade, o que diferenciaria Renato Russo e Brother Simion em seus discursos, nas músicas “Monte Castelo” e “Amor” se, os músicos em suas respectivas letras tratam o mesmo tema a partir da mesma referência?

Não compreendo o preconceito, ainda mais quando uma das críticas feitas é que o rock cristão é extremamente comercial, e por sua vez estaria traindo a ideologia do gênero. A afirmação é falsa por dois motivos: o primeiro, é que desde sua entrada no ambiente religioso a resistência tem sido enorme, até os dias de hoje. Que ser humano lúcido, com intenções comerciais tentaria introduzir um estilo musical discriminado ao qual dificilmente obteria lucro? Se fosse extremamente comercial, os integrantes do Êxodos (uma das primeiras bandas do segmento no mundo) não teriam sido expulsos de sua igreja, a Sinal Verde não teria encerrado as atividades por dificuldades financeiras, e por aí vão vários exemplos. Até hoje, em anos 2010, existem bandas com propostas contextualizadas que misturam crítica com espiritualidade e são extremamente martirizadas, dos dois lados da moeda. Vendas? Às vezes não chegam nem a cinco mil cópias e precisam de campanhas financeiras do próprio público, isto quando não lançam para download grátis. Proporcionalmente ocorre nos países internacionais, salvo que eles possuem uma abertura mais tolerante ao estilo. Duas vertentes no meio cristão que certamente vendem é o pentecostal (uma espécie de brega religioso) e o congregacional. O restante é campo duvidoso. O segundo motivo está em que o rock não nasceu com uma ideologia anticomercial. Durante a década de 50, o rock possuía um caráter mais dançante e romântico. Uma frase interessante que li em algum lugar diz que: “Não existe gênero musical mais pop do que o rock, pela sua extensa quantidade de subgêneros”.

Em relação às origens do rock, um detalhe interessante é que o rock começou com várias influências, dentre jazz, blues, folk, country e gospel. O gospel, aqui não possui o mesmo significado do termo comercial que abrange toda a música evangélica produzida aqui no Brasil, mas possui sua origem diretamente ligada aos corais religiosos. Ou seja, o rock indiscutivelmente nasceu com um pouco de “sangue” religioso.

Na década de 70, o movimento punk ganhou força contrapondo o rock progressivo, por conta da influência pop existente na época. O punk, mesmo surgindo com uma proposta anticapitalista, tornou-se extremamente lucrativo. Em outra época, agora mais recente a linha tênue entre a forte resistência ao indie e sua popularidade. A história do rock é cheia de nuances, controvérsias, e o mais interessante: um estilo musical abraçado por muitos que desejam o fim das barreiras do preconceito o exalta em suas atitudes. Vale salientar que isto não é culpa do rock, mas do ser humano que ainda não aprendeu a lidar com sua bipolaridade.

Não dá para entender a limitação dos trabalhos musicais. A arte é uma expressão de múltiplas experiências e percepções de alguém. O músico que apresenta um rock com letras cristãs está, simplesmente fazendo o mesmo que um músico comum faria: apresentar a sua visão de mundo em seu trabalho. E quem foi que disse que uma expressão artística é válida, e outra não é? É insano obrigar um músico adepto ao cristianismo a deixar de utilizar sua fé e ao mesmo tempo forçar um ateu a não ver defeitos na religião. E proselitismo, palavra amada pelos pseudointelectuais de hoje não tem nada a ver com o que o rock cristão é.

Sobre o Black metal e demais vertentes que já nasceram com uma ideologia antirreligiosa, é um assunto bem mais profundo, e com outras considerações, as quais provavelmente serão tratadas em outro artigo.

Na próxima semana, apresentarei a continuação deste artigo abordando as argumentações que os religiosos apresentam ao respeito do rock.

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