Um Brinde – Apologética cristã ou bandeira pra defender a igreja local?


Primeiramente eu preciso dizer que defender a igreja local não é nenhum extremismo. Muito pelo contrário, isso até pode ser uma atitude louvável. Mas, mesmo que pode ser, nem sempre é. Como exemplo básico e pessoal, eu muitas vezes defendi a igreja local em que estava envolvido, porém ela estava toda errada: pregava uma doutrina incorreta, não vivia o cristianismo de fato e não tinha relacionamento profundo com Deus. Sim, acreditem, já passei por uma congregação assim. Hoje me arrependo por ter “comprado briga” por tal ministério. Primeiro, porque eu não estava preparado teológica e nem espiritualmente para isso. Segundo, eu estava sendo mais errado que a própria congregação por defender seus erros.

A Bíblia nos orienta a crescermos na graça e no conhecimento (2 Pedro 3:18) e esse foi um dos principais motivos que me fez querer estudar mais teologia. Não no seminário, porque não tenho tempo e sequer dinheiro, mas procurei aprender em casa, nas madrugadas de insônia que tenho. Apologética (do latim apologetĭcus, através do grego ἀπολογητικός, por derivação de “apologia”, do grego απολογία: “defesa verbal”) é a disciplina teológica própria de uma certa religião que se propõe a demonstrar a verdade da própria doutrina, defendendo-a de teses contrárias. Em uma visão ampla, é certo afirmar que todo cristão deve ser apologético. Mas, nem sempre o que vemos é uma defesa da fé e sim uma defesa do “meu quadrado”, ou seja, da minha congregação. Eu vou além e digo: tristemente vemos a defesa de seitas e heresias, menos a do cristianismo. E aqui o caro leitor deve se perguntar: mas o cristianismo realmente precisa de defesa? A apologética cristã é relevante? Sim, claro, óbvio e evidente. Gregory Koukl disse:

“A apologética desfruta de uma reputação questionável entre os não-simpatizantes. Por definição, os apologistas ‘defendem’ a fé. Eles combatem as falsas ideias, destroem especulações levantadas contra o conhecimento de Deus. Tais palavras soam como palavras de combate para muitas pessoas: façam um círculo com as carroças; levantem a ponte levadiça; preparem as baionetas; carreguem as armas; preparar, apontar, fogo! Não é surpresa, portanto, que os cristãos e incrédulos igualmente associem apologética a conflito”

Como disse o blogueiro João R. Weronka, do site Internautas Cristãos, discordância não significa desrespeito. Eu acredito veementemente que sem apologética, dificilmente haverá cristianismo. Explico: não é de hoje que o cristianismo é mal compreendido. Desde a época de Jesus, já existiam pessoas que achavam toda essa ideia uma coisa de louco e sem sentido. Por isso, Cristo precisou, em várias vezes, dialogar com os fariseus para defender seus ideais. Alan Richardson esclarece melhor a importância da apologética:

“A apologética trata das relações da fé cristã com a esfera mais vasta do conhecimento ‘secular’ do homem – a filosofia, a ciência, a história, a sociologia e as outras mais – visando demonstrar que a fé não discrepa da verdade descoberta por essas pesquisas. Tarefa como esta deve, necessariamente, ser empreendida em cada época. É mesmo um empreendimento de considerável urgência num período em que os conhecimentos científicos e as transformações sociais se processam tão rapidamente”

Então qual é o problema de eu defender minha igreja local? Depende. Vamos lá: suponhamos que você ache sua igreja perfeita: o pastor vive em santidade e é honesto, o louvor é verdadeiro e dedicado, os obreiros são bem preparados e esforçados para com a obra de Deus e isso já é o suficiente para que você brade que sua congregação está preparada para receber os perdidos. Até aí, tudo bem. Mas o grande PORÉM é que sua congregação não desenvolve nenhuma atividade missionária, não se importa com evangelismo, não se relaciona com os demais irmãos e os cultos são mornos por falta de uma pregação inteligente. Tem como defender isso? Os membros são até pessoas dedicadas dentro da congregação mas fora delas, onde mais eles precisam ser dedicados, o cristianismo morre e eles voltam a ser pessoas comuns, sem desempenhar o evangelho.

Apologética cristã não é defesa da sua igreja local e sim defesa da sua fé. Talvez muitos dos pressupostos usados em sua igreja local, estejam biblicamente incoerentes com o cristianismo. Paul Tripp, em seu livro Como as Pessoas Mudam (coescrito com Tim Lane) identifica sete evangelhos falsos – caminhos “religiosos” que usamos para nos “justificar” ou “salvar” à parte do Evangelho da graça.

• Formalismo: “Eu participo dos encontros regulares e dos ministérios da igreja, assim sinto-me como se minha vida estivesse sob controle. Estou sempre na igreja, mas isso realmente tem pouco impacto em meu coração ou sobre como vivo. Posso me tornar julgativo e impaciente com aqueles que não têm o mesmo compromisso que eu”.

Isso explica um pouco do que eu disse logo acima: não é porque a intenção é boa que a motivação seja a correta [Cristo].

• Legalismo: “Eu vivo pelas regras – regras que criei para mim mesmo e regras que criei para os outros. Sinto-me bem se posso guardar minhas próprias regras, e me torno arrogante e cheio de desdém quando os outros não alcançam os padrões que coloquei para eles. Não há alegria em minha vida porque não há graça a ser celebrada”.

Muitos de nós ainda vivemos esse legalismo, cujas regras desestruturam toda a aparência sincera de cristianismo. Em Filipenses 2 versos 14 e 15 diz que precisamos fazer “todas as coisas sem murmurações nem contendas” para que nos tornemos “irrepreensíveis e sinceros”. Precisamos ser servos de Cristo por completo. Consegue entender a importância da apologética cristã?

• Misticismo: “Eu estou envolvido em uma busca incessante por uma experiência emocional com Deus. Vivo para os momentos em que me sinto próximo dele, e frequentemente luto contra o desânimo quando não me sinto dessa maneira. Posso também mudar de igreja frequentemente, buscando aquela que me dará aquilo que procuro”.

Observe que “experiência emocional” é muito diferente de “experiência espiritual”. Quando nos sujeitamos a momentos de emoções com Deus, não nos preocupamos com nossa vida espiritual.

• Ativismo: “Reconheço a natureza missional do Cristianismo e estou apaixonadamente envolvido em consertar esse mundo destruído. Mas, no fim do dia, minha vida é mais uma defesa do que é certo que uma busca alegre por Cristo”.

Chegamos em um ponto primordial que é posto equivocadamente por alguns de nós: o desejo por defender a fé mas a limitação física e teológica não permite. Fomos eleitos para sermos santos e irrepreensíveis diante dele [Deus] em amor (Efésios 1:4). Devemos pregar o evangelho com convicção e não por mera emoção para sermos vistos e reconhecidos.

• Biblicismo: “Eu conheço a Bíblia do começo ao fim, mas não permito que ela me domine. Reduzi o Evangelho à proficiência do conteúdo e teologia bíblicos, portanto sou intolerante com aqueles que têm menos conhecimento”.

Isso é bem comum em nosso meio e, isso me entristece. Os fariseus conheciam muito bem a lei e as escrituras e nem por isso eram santos. A bíblia deve ser alimento para nossa alma e não vantagem para o nosso ego.

• Terapismo: “Falo muito sobre as pessoas feridas em minha congregação, e como Cristo é a resposta para suas dores. Porém, mesmo sem perceber, eu fiz de Cristo mais Terapeuta que Salvador. Eu vejo as feridas como um problema maior que o pecado – e, sutilmente, mudo minha maior necessidade – da minha falência moral para minhas necessidades não satisfeitas”.

Esse deve ser um dos principais problemas de defender sua congregação: vocês devem estar fazendo a coisa certa da maneira errada. Se tiverem uma apologética do cristianismo, estarão sendo firmes em suas convicções e biblicamente corretos.

• Socialismo: “A comunhão e amizades profundas que encontro na igreja se tornaram meu ídolo. O corpo de Cristo substituiu o próprio Cristo, e o Evangelho é reduzido a uma rede de relacionamentos cristãos satisfatórios”.

Sejam igrejas e amem o dono dela, que é Cristo. Enquanto pensarmos que nossa congregação é a base de tudo, estaremos errando feio em nossa vida cristã. Fiquem atentos aos próximos textos. Por enquanto, um brinde!


Referências

MYATT, Alan – Apologética p. 4 – www.monergismo.com

KOUKL, Gregory in BECKWITH, Francis J. & CRAIG, William Lane & MORELAND, J.P. Ensaios apologéticos: um estudo para uma cosmovisão cristã. Hagnos. São Paulo, SP: 2006. p.55

RICHARDSON, Alan. Apologética cristã. JUERP. Rio de Janeiro, RJ: 1978. p.17

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