Um Brinde – Sobre ideologias, cultura secular e prédios sagrados (Parte II)


Ideologia “é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações ou regras (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo, de representações e práticas (normas, regras e preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as diferenças, como as de classes, e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento de identidade social, encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos, como, por exemplo, a humanidade, a liberdade, a igualdade, a nação, ou o Estado.” (Marilena Chauí, o que é ideologia 1980).
Essa é uma das variáveis definições de ideologia. Posso indicar um norte que garanta ao caro leitor que essa série de textos não tem uma certa função de “puxar corda”, indicando o que é aproveitável e o que não é. Assim como faço com tudo aquilo que escrevo, abordo o cotidiano e aquilo que convém a minha realidade de vida. A palavra ideologia foi criada por Destrutt de Tracy, no séc. XIX, e significa, etimologicamente, ciência das ideias. Isso envolve desde já, pelo menos aqui nesse texto, o muro que existe entre a cultura cristã e a secular que quase, utopicamente, conseguem se separar. Ao meu ver elas deveriam se encontrar em vários momentos do nosso cotidiano quanto eventual, quanto rotineiro. Um dia desses, ajudando um amigo em um trabalho em um trabalho de cartografia, conheci um amigo dele, cristão da Igreja Metodista Wesleyana, e me falou que só ouvia música gospel pois encontrou todos os ritmos lá, então não tem porque procurar fora. Respeitei a opinião dele, mas pensei comigo: “isso não seria limitar a cultura? Se fechar em um mundo gospel e não deixar nada mais entrar, somente sair?” e é isso que acontece: queremos que os outros ouçam os mais variáveis ritmos gospel, mas nós não aceitamos nada que venha de lá, do ‘mundo’. Nem ao menos damos chances para ouvir o que a letra passa, refletir sobre a intenção do autor, sobre aquilo que compôs, procurar entender o meio que vive. Isso é cultura. Lembro também de um amigo meu ateu, que ao ser apresentado a banda Switchfoot por mim, disse que achava o som dos caras muito bom, mas que não ia dar atenção a ela pois eles são cristãos, apesar de suas letras serem sem rótulos. Então, é isso que acontece por aí: uma contracultura contraditória. Karl Marx compreende a ideologia como uma consciência falsa, proveniente da divisão entre o trabalho manual e o intelectual. Isso afetaria outros conceitos que temos a respeito de assuntos mais complexos como a doutrina da salvação, por exemplo.
Ainda sobre a definição de ideologia, é coerente citar o pensador Antônio Gramsci, que considero uma das mais conceptíveis para ser estudada nesse texto, a qual diz que “ideologia significa uma concepção de mundo, manifestando-se de modo tácito na arte, no direito, na atividade econômica, enfim em todas as manifestações da vida”. A partir disso, compreendemos que ideologia, em si, não é algo ruim. Torna-se algo negativo quando isso tem um fundamento ruim, com fins egoístas, indo ao encontro da cultura como um labirinto de ideias que se cruzam para constituir uma massa de entretenimento e conservação cultural. Segundo Rousseau “todo homem nasce bom, e a sociedade o corrompe”. A cultura secular é extremamente plural. Não tem como fugir dela. E aqui parafraseio Jesus, quando disse: “Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno” (João 17:15). Estabelecer um muro entre a cultura cristã e a cultura secular, é querer dividir o mundo, que o próprio Cristo não quis fazer. Como Salvador, pediu que fossemos libertos das coisas vis e más deste mundo, mas que houvesse relacionamento com a cultura e arte universal…

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